O corpo humano é uma estrutura de engenharia de alta complexidade, semelhante a uma edificação. Só que, em nosso conjunto de sustentação, no lugar de estacas e sapatas, temos músculos, tendões, fáscias, ligamentos e ossos. Porém, assim como um prédio, ao ser construído em uma base instável, é considerado uma ameaça, a discrepância e sobrecarga na pisada também podem gerar graves problemas ao nosso corpo. Prova disso é que 80% da população apresenta problemas nos pés – um dado preocupante, já que usamos essa parte do corpo em diversas atividades de vida diária. 

Cansada da dor, a dentista Mara de Mello Pereira, de 63 anos, que desenvolveu uma artrose de quadril com fortes dores na perna, buscou um profissional que realizasse uma avaliação precisa, para minimizar os sintomas e evitar uma cirurgia. “Quando somos jovens, o corpo, às vezes, compensa um desequilíbrio corporal com algo que pode passar batido, mas, com o tempo, isso passa a incomodar. Tenho meio centímetro a menos em uma perna. Depois que fiz uma avaliação baropodométrica computadorizada e passei a usar a palmilha de podoposturologia, a dor praticamente desapareceu. Outro fator determinante para o sucesso no tratamento foi o diagnóstico e a explicação sobre meu caso proporcionada no dia da análise”, diz a paciente.

 

Avaliação tecnológica da pisada

Para analisar as inúmeras disfunções da pisada, o fisioterapeuta Dr. José Lourenço Kutzke, mestre em Engenharia Biomédica e professor de Cinesiologia e Biomecânica, ressalta a importância do exame feito pela baropodometria computadorizada. “Esse método de avaliação tem como princípio mapear a pressão da superfície plantar em pessoas de todas as faixas etárias, indicando alterações posturais importantes, que geram dores e disfunções corporais”, explica o especialista.

Durante quase dois anos, a empresária Dalva Maria Zart, de 46 anos, sentia dores na tíbia ao praticar corrida e tomava antiinflamatórios para minimizar os sintomas. Entretanto, foi a baropodometria que revelou a causa do problema: a pisada errada, com peso corporal pendendo mais para um lado, prejudicando a postura. “No primeiro treino usando as palmilhas, acabaram as dores. Com isso, melhorei meu rendimento, tanto que consegui participar de três provas seguidas, sem dor”, relata. E pensar que ela cogitou desistir das corridas... agora, está treinando para participar de uma meia maratona.

A importância da baropodometria é comprovada por estudos do Departamento de Tecnologia e Saúde de Roma, na Itália, bem como estudos recentes realizados no Laboratório de Biomecânica da Universidade de Bruxelas, na Bélgica. O resultado é claro: a avaliação tecnológica da pisada é fundamental para a construção do diagnóstico correto. 

pisadas
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Entendendo o método

Para a realização da análise, o paciente, ao pisar tanto de forma estática como dinâmica (caminhando) sobre a plataforma baropodométrica, gera imagens no software. A imagem divide os pés direito e esquerdo e os subdivide em antepé (segmento anterior) e retropé (segmento posterior). “Isso permite a determinação da percentagem do peso suportado por cada um dos pés e a relação de simetria entre eles. Além disso, pode-se calcular o índice do arco plantar, sendo cinco arcos em cada pé”, esclarece Dr. José Lourenço. 

Outro aspecto apontado no exame tecnológico diz respeito a parâmetros da estabilidade. Eles são derivados do comportamento espacial e do centro de pressão entre o corpo e as pernas, possibilitando identificar lesões futuras decorrentes da instabilidade dos membros. “A pisada é mais complexa do que a simples observação de alterações por pronação ou supinação. Ela é como uma impressão digital: raramente se encontram duas iguais”, acrescenta o fisioterapeuta. 

Quando o exame é realizado por um profissional especializado, o método pode prevenir inúmeras lesões, como, por exemplo: fascite plantar, esporão de calcâneo, hálux valgo (joanete), fraturas por estresse, tendinites, artroses, hérnias de disco, dores articulares e musculares crônicas, pé diabético, deformidades ósseas provocadas por outras doenças e neuromas. 

 

Melhora da performance 

A baropodometria e a estabilometria são essenciais na melhora da performance esportiva. É o que comprova a vendedora Ana Paula de Souza Borges, de 23 anos, que estava sentindo dores durante a corrida, principalmente no quadril, joelhos e tornozelo esquerdo, e vivia se machucando – “tirando alguma coisa do lugar”. Embora fizesse massagens frequentemente e crioterapia, as dores não passavam. “Descobrimos, com a baropodometria, que todas as dores eram devido a minha pisada estar incorreta, e que cada pé tinha uma pisada específica. Com o uso das palmilhas personalizadas, os benefícios foram incríveis já nas primeiras semanas. A dor no quadril foi a primeira a sumir, e logo os tornozelos e joelhos também ficaram ótimos”, salienta a paciente. 

O tratamento de Ana Paula também reduziu o cansaço durante os treinos e ajudou na estabilização de alguns exercícios físicos na academia, como os treinamentos funcionais. “Depois que comecei a usar a palmilha, consegui executar os movimentos perfeitamente, sem me incomodar com o joelho. Além disso, para a prática de corrida, tive a indicação de um tênis mais adequado ao meu caso, o que também ajudou. Meu desempenho melhorou significativamente e já não preciso ficar dependendo de medicamentos ou outros tratamentos”, ressalta a jovem.

avaliação podoposturologia
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Palmilhas e alterações mecânicas corporais

A partir da avaliação da pisada, somada à avaliação da postura através do software de análise, do histórico do paciente e de testes específicos, são confeccionadas as palmilhas personalizadas de podoposturologia. Para a confecção, são utilizados neoprene, poliuretano e EVA extramacio, que, associados a outros componentes, provocam propulsão, absorção de impacto e conforto, podendo ser usadas na maioria dos calçados ou tênis.

“No interior das palmilhas são inseridos calços de correção capazes de alterar a informação somatossensorial de receptores cutâneos plantares. As intervenções por meio das palmilhas também desempenham um papel no controle e no desenvolvimento de uma nova postura”, acentua Dr. José Lourenço. Deste modo, é fornecido o suporte mecânico necessário para que o corpo crie uma nova consciência postural, não havendo mais necessidade do uso das palmilhas. Geralmente, o tratamento leva em torno de um ano. 

“Como qualquer máquina de alta performance, o corpo humano também precisa passar por uma avaliação e revisão, verificar a ‘geometria’ e o ‘balanceamento’ para seu melhor desempenho. Por isso, as análises baropodométrica e estabilométrica são indicadas desde a infância até a terceira idade, para prevenir inúmeras alterações”, finaliza o Dr. José Lourenço Kutzke, um dos precursores desta análise aplicada à terapêutica da podoposturologia no Brasil.

 

Por: Lúcia Costa

Fonte: http://revistacorpore.com.br/materias/reabilitacao/podoposturologia/a-importancia-da-pisada-ideal